“A CMB assumiu como prioridade privilegiar a mobilidade coletiva” - Olga Pereira, Vereadora da Mobilidade em Braga
28 fevereiro, 2022 por
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Em entrevista ao CLICX, a vereadora da Câmara Municipal de Braga, Olga Pereira, fala-nos dos desafios que tem pela frente e das alterações na mobilidade que o executivo quer implementar na cidade durante o próximo mandato.


A mobilidade elétrica e a sustentabilidade são ideais cada vez mais vinculados na sociedade e que requerem atenção por parte de todas as instituições. O município de Braga não é exceção e tem vindo a apostar numa cidade cada vez mais sustentável para os seus munícipes e visitantes. Para melhor conhecer as propostas, conversamos com a vereadora da Câmara Municipal de Braga, Olga Pereira.    

A vereadora à frente do pelouro da mobilidade afirma que “a Câmara Municipal de Braga assumiu como prioridade privilegiar a mobilidade coletiva”, tendo diversas propostas para pôr em prática durante todo o mandato. Desde a tomada de posse, a 9 de outubro de 2021, a câmara já adquiriu 25 novos autocarros a gás natural e conta com mais “30 viaturas elétricas no próximo quadro de apoio”, segundo Olga Pereira,  fruto de uma candidatura ao Programa Operacional para a Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (POSEUR) submetida a 30 de Setembro de 2021. O investimento total da operação, que globalmente ascenderá a mais de 15 milhões de euros, contará com uma comparticipação do Fundo de Coesão em oito milhões de euros.

A mobilidade coletiva passa, também, pela criação de novas ciclovias e de uma rede partilhada de bicicletas elétricas, incluindo estacionamentos direcionados para as mesmas. Os condutores de veículos elétricos não serão esquecidos, sendo lançado “um concurso público para novas localizações para postos de carregamento desde os mais lentos aos rápidos, de modo a dar uma resposta eficaz a todos os utilizadores de carros elétricos”, enuncia.

A questão do trânsito cada vez mais sentido na cidade é uma das preocupações do executivo que vai apresentar nos próximos dias “o projeto para o Nó de Infias, sendo certo que achamos que o problema só se resolverá quando conseguirmos construir a Variante do Cávado”, afirma a vereadora. Outra aposta neste sentido é a “instalação de cerca de 19 sensores em vários espaços da cidade que nos vão permitir, em tempo real, perceber como é que está a fluir o trânsito (...) [acompanhados por] 13 ecrãs informativos”, aponta.


Entrevista na íntegra:

A Câmara Municipal de Braga está fortemente empenhada na mobilidade e sustentabilidade. Isto é um facto, uma realidade presente, visível e sentida no dia a dia na cidade. Que novidades pode anunciar, neste momento, para os bracarenses e para os cidadãos de todo o mundo, uma vez que Braga está cada vez mais a ser falada mundialmente? 


O Município de Braga assumiu como prioridade para este mandato privilegiar a mobilidade coletiva. Nós temos o compromisso para com os bracarenses de melhorar a nossa rede de transportes públicos e, portanto, os nossos planos na descarbonização passam muito pelos transportes urbanos de Braga. Em novembro do ano passado [2021], adquirimos 25 novos autocarros a gás natural. Conseguimos, com esta última aquisição que foi realizada através de uma candidatura e com apoios comunitários, reduzir a idade média dos autocarros de Braga de 19 anos e meio para cerca de 15 anos. Foi o maior investimento alguma vez feito a este nível desde que a TUB foi criada à sensivelmente 40 anos atrás e, portanto, este é o nosso compromisso. Ganhamos, agora, uma candidatura ao POSEUR para adquirir mais 30 “autocarros limpos” com propulsão 100% elétrica, mais eficientes e eco sustentáveis, com zero emissões poluentes quando comparados com os seus equivalentes movidos a diesel, o que nos deixou  muito felizes. Estamos a encontrar respostas para cumprir os nossos objetivos: reduzir a emissão de gases, reduzir a idade média da nossa frota e criar cada vez melhores condições para constituir uma verdadeira alternativa de transporte ou para puder oferecer uma verdadeira alternativa de transporte aos nossos cidadãos. 

O investimento total da operação, que globalmente ascenderá a mais de 15 milhões de euros, contará com uma comparticipação do Fundo de Coesão em oito milhões de euros e permitirá a aquisição de 30 autocarros 100% elétricos de tipologias standard e midi. Adicionalmente a operação, a realizar entre Janeiro de 2022 e Junho de 2023, inclui também a realização de investimentos em infraestruturas, designadamente a implementação de 16 novos postos de carregamento de tipologia ‘twin’.

Por muito boas intenções que tenhamos e coisas que possamos fazer, temos que ter consciência que temos que sensibilizar as pessoas para a necessidade de alterar os seus hábitos, para a necessidade de se deslocarem menos em viatura de transporte individual. Todas as análises e estudos que temos apontam para o facto da maior parte das pessoas se deslocarem em viatura individual para fazer uma deslocação até 5 km e isto é assustador, porque faz com que as pessoas congestionem o trânsito e que aumentem os seus níveis de stress. Portanto, este é o nosso grande desafio ao nível da mobilidade: consciencializar as pessoas e criar boas alternativas para que elas utilizem outro tipo de transportes que não apenas a viatura individual. 

Não ficamos só por aqui. Vamos criar ciclovias, requalificar a Avenida da Liberdade e a Avenida 31 de Janeiro e criar, também aqui, uma ciclovia para formar malha com outras ciclovias que já temos e para permitir que quem quiser vir para o centro da cidade trabalhar, estudar ou passear o possa fazer de forma segura através de bicicleta. 

Nós, hoje em dia, também já temos uma forma partilhada de mobilidade que são as trotinetes e que podem complementar uma pequena deslocação que se faça ou a pé ou de autocarro. Vamos, ainda este ano, se correr como está planeado, substituir os abrigos que existem no centro da cidade, acoplando, em alguns deles, um estacionamento para bicicletas. Contamos que, nos próximos meses, para além das trotinetes, tenhamos disponível uma rede partilhada de bicicletas elétricas. E tudo isto com o objetivo de complementar as pequenas deslocações para que as pessoas o possam fazer de autocarro, a pé, de trotinete ou bicicleta. 

Estamos, também, a fazer um estudo, que é um compromisso nosso, para criar uma deslocação numa espécie de metro de superfície que se desloca, não em carril, mas em pneumático em via dedicada. 



O Planeamento Urbano (PU), nomeadamente na mobilidade, prevê todas as transformações profundas: o modo de viver, trabalhar, transitar, divertir e socializar. Esses pormenores que a doutora falou vão modificar a vida das pessoas, o seu dia a dia, as suas deslocações sem ser em carro próprio. Pode-nos especificar alguns pormenores?


Eu acho que as pessoas vão perceber claramente quando experimentarem que a sua vida se pode alterar drasticamente, quer a sua saúde se as pessoas fizerem maiores deslocações a pé, quer a sua economia porque, seguramente, vão poupar muito mais ao utilizar transportes coletivos ou outro tipo de transportes num percurso reduzido que tenham que fazer e deixar os seus automóveis em casa. Ao preço que está a gasolina, hoje em dia, não tenho dúvidas que serão certamente  alternativas bastante mais económicas e as pessoas têm que escolher obviamente aquela que se adapta melhor ao seu movimento pendular.


Vivemos o século das cidades e é nelas que estão os problemas, as soluções e as pessoas. Até 2050, prevê-se que 70% da população mundial estará nos centros urbanos. Seguramente, a cidade de Braga não será exceção à regra, até porque ela cresce a um ritmo acelerado e é considerada por muitos portugueses e nossos irmãos brasileiros, uma cidade amiga, excelente qualidade de vida, harmoniosa, centro universitário, empresarial e com índices de empregabilidade altíssimos. Que comentário faz a tudo isto, respeitante à mobilidade?


Nós estamos muito comprometidos com todos estes desafios. Eu recordo que, em 2013, era a responsabilidade deste executivo a criação da InvestBraga, empresa municipal que trabalha as áreas económicas e ligadas às empresas. Este movimento foi um bocado travado pela pandemia, mas já foram criados mais de  2 mil empregos. Portanto, Braga tem e teve esta preocupação de criar uma empresa municipal ou de alterar o âmbito de atividade de uma empresa municipal que já existia que era o PEB (Parque de Exposições de Braga) e que passou a ser a InvestBraga, com o objetivo que ultrapassa, em muito, aquele que existia anteriormente e que se esgotava na realização de feiras na grande nave. Essa é claramente uma batalha superada.




Estamos a 30 minutos do aeroporto Sá Carneiro, estamos a 45 minutos do Aeroporto de Vigo, estamos também muito perto do Porto de Leixões, somos servidos por 5 autoestradas e temos uma qualidade de vida invejável que é muito rara numa cidade de dimensão semelhante. E, portanto, olhando para Braga, nós percebemos a atratividade que ela representa e a qualidade de vida que ainda apresenta para quem vem de fora e para quem vive aqui. Eu vivo aqui desde sempre, só sai para estudar e continuo a achar que se vive e que se está muito bem em Braga. Evidentemente Braga foi a cidade que mais cresceu no país, como demonstram os censos cujo os resultados já começam a ser publicados e não estava propriamente preparada para o crescimento que beneficiou nos últimos 30 anos, fruto de variadíssimas circunstâncias para a qual também contribuiu a Universidade do Minho. 

Crescemos muito e temos praticamente as mesmas vias que tínhamos há 30 anos atrás. Só que agora a cidade abriu e no fundo está, neste momento, espartilhada por umas vias que foram criadas para serem vias rápidas e que, hoje em dia, são vias que estão perfeitamente integradas na malha urbana. E, portanto, nós estamos a tentar resolver alguns problemas, como aquele que temos identificado no Nó de Infias, por exemplo, e que é um dos nós mais críticos no trânsito da cidade. 



A Variante do Cávado é aquela variante que evitará que todo o trânsito de atravessamento que vem do norte da cidade de concelhos vizinhos, de pessoas que são obrigadas a entrar na cidade para ir para outros destinos, porque não têm outra alternativa e achamos que essa será a única forma de evitar que esse trânsito e os constrangimentos que cria para quem precisa de circular por aquela zona para ir trabalhar, ir para os colégios ou para o Sá de Miranda. E, portanto, temos identificados os problemas, sendo certo que não são exclusivos de Braga  e para o qual também concorrem outros concelhos, tornando-se uma questão supramunicipal. 


Os autárquicos e os especialistas consideram que uma cidade mais sustentável, será a que se souber reinventar e, indo ao encontro do que a Dra. Olga referiu, Braga está cada vez mais a preparar-se e reinventar-se em diversos sentidos, como sustentabilidade, mobilidade e até trânsito, criando novas soluções. 


Exatamente. Estamos a tentar resolver alguns dos problemas que temos identificados. Para além dos já referidos, vamos agora, resultado de uma candidatura, avançar com a instalação de cerca de 19 sensores em vários espaços da cidade que nos vão permitir, em tempo real, perceber como é que está a fluir o trânsito, se há algum acidente. Vamos ter a acompanhar estes 13 ecrãs informativos que nos vão permitir indicar às pessoas para fazerem um desvio antecipadamente, se for possível fazê-lo, evitar um certo caminho, de forma a informar a população. Vamos conseguir, também, perceber, ao nível ambiental, se as condições são as ideias ou não são. Enfim, vamos poder comunicar  com as pessoas de outra forma.


Respeitante ao que a Dra. Olga acabou de referir, existem vozes que, em relação a esse sistema de sensores de tráfego, temem que a medida possa ser um incentivo de mais carros dentro do centro da cidade. Que comentário faz a estas preocupações?   


É assim, não me passa pela cabeça que alguém pegue num carro para fazer uma deslocação só porque tem ali um painel informativo que me vai dizer se a via está congestionada ou não, sinceramente. Não acho que seja por aí. Acho sim que todos temos que sensibilizar e, da mesma maneira que nós, através de um painel de informação, podemos dar informação ao condutor do automóvel, podemos, também, estar a informar alguma coisa que seja do interesse do condutor da bicicleta ou da motorizada. A informação pode ser útil até para o peão. Portanto, não é uma informação exclusiva para o condutor.


Cada vez mais se fala e se comenta até que ponto Portugal está a preparar-se para os efeitos adversos das alterações climáticas. Sabendo que é grande a preocupação desta autarquia, com resultados bem visíveis, como se prepara para este problema? 


Toda esta nossa conversa depois é convertível em emissões de CO2, portanto se nós conseguirmos ter mais pessoas a andar a pé, se conseguirmos ter mais pessoas a deslocar-se de autocarro, se conseguirmos ter mais pessoas a  deslocar-se de bicicleta, isso vai-se refletir em menos gases nocivos para o ambiente e, consequentemente, em melhor ambiente para todos.


Sabendo que Braga é considerada uma cidade pioneira, respeitante ao cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), o que falta para atingir a meta?

Muita coisa (risos). É um trabalho muito desafiante e é um trabalho muito trabalhoso, desculpem a redundância, mas é toda uma alteração de hábitos de vida que estamos a começar a fazer, com os quais estamos muito comprometidos, mas isto é um trabalho que não tem fim. 



Uma das metas do Pacto Ecológico Europeu é a instalação de 1 Milhão de pontos públicos de carregamento de automóveis elétricos até 2025, indicador exponencial da utilização de veículos elétricos. O que está a ser feito aqui na cidade neste sentido?


Nós estamos precisamente a preparar um regulamento com novas localizações. Braga tem poucos postos de carregamento e os carregadores que tem estão, do ponto de vista tecnológico, bastante ultrapassados e, portanto, estamos a preparar um caderno de encargos que nos vai permitir lançar um concurso público para novas localizações para postos de carregamento desde os mais lentos aos rápidos, de modo a dar uma resposta eficaz a todos os utilizadores de carros elétricos. 


O mesmo pacto refere que o setor dos transportes necessita de mais fortes medidas de redução de emissões, estimadas menos de 90% até 2050. O que está previsto no Plano de Ação Mobilidade Urbana Sustentável (PAMUS) da cidade? 


O Plano de Ação Mobilidade Urbana Sustentável (PAMUS) não vai a esse detalhe de quantificar o número de transportes que temos que ter para esse efeito. As candidaturas que estamos a instruir são acompanhadas com um relatório que diz quanto é que nós vamos poupar de CO2 na atmosfera com aquela intervenção. Temos isso, também, obviamente, nas ações que fazemos, por exemplo com a compra de 25 autocarros a gás natural para os Transportes Urbanos de Braga temos os cálculos de quanto é que poupamos em termos de emissões de CO2. Com os 30 autocarros elétricos que vamos adquirir agora, vamos, certamente, reduzir em muito o número de emissões de CO2, mas as pessoas têm que se capacitar que o maior produtor de emissões é o veículo individual não elétrico e que a contribuição da circulação de veículos que hoje temos na rua a circular é a maior fonte de poluição que temos. E, portanto, enquanto as pessoas não se consciencializarem disso, o município não consegue trabalhar sozinho, por muito que se esforce. Têm que ser todos a trabalhar para o mesmo objetivo.


Existem muitas cidades que tentam um planeamento policêntrico, em serviços, lazer, trabalho e transporte. Exemplo, de Paris, com o lema de 15 minutos para resolver todas as necessidades. Estocolmo e Copenhaga, são consideradas implantações “cunhas verdes”, isto é, áreas naturais que começam mais reduzidas no centro e se expandem em direção às periferias – os chamados corredores ecológicos e ambientais. E Braga, qual estratégia que quer a nível de sustentabilidade e mobilidade?


Eu sei que o paradigma é o da cidade dos 15 minutos e eu acho que, no caso de Braga, ela já se aplica. A verdade é que eu acho que, em Braga, a qualidade de vida que nós temos e que ainda mantemos passa muito pelo facto de ser muito raro numa deslocação diária demorar mais de 15 minutos para chegar onde quer que seja. Portanto eu acho que nós aí estamos muito à frente. Paris precisa, seguramente, e é muito difícil cumprir esta meta dos 15 minutos mas aqui em Braga é muito difícil não a cumprir. E, portanto, eu diria que nós já somos a cidade dos 15 minutos em qualquer circunstância, muito dificilmente não atravessa a cidade em 15 minutos.   

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